Com quiosques de praia fechados em Natal, famílias enfrentam dificuldades: ‘Não sabemos se vamos comer amanhã’, diz garçom

Alexandro 'Índio' é funcionário do Quiosque 4 que está fechado assim como todos os outros da orla de Ponta Negra — Foto: Cedida
Alexandro ‘Índio’ é funcionário do Quiosque 4 que está fechado assim como todos os outros da orla de Ponta Negra — Foto: Cedida

G1RN/16.07.2020 – O garçom Alexandro Medeiros, de 35 anos, é um dos profissionais que ainda não puderam retomar às atividades mesmo com a reabertura gradual da economia em Natal. Parado há quatro meses, o profissional que trabalha no Quiosque 4 da praia de Ponta Negra relata dificuldades para sobreviver durante a pandemia.

Os quiosques e barracas de praias poderão voltar a funcionar a partir de 29 de julho, na fração 1 da fase 3 do plano de retomada da economia do RN. Desde março, a única renda de Alexandro vem do auxílio emergencial de R$ 600 liberado pelo governo federal. Com a ajuda, o garçom consegue pagar o aluguel de R$ 400 da casa onde vive com a esposa e os dois filhos, além de quitar as contas de água e energia.

“Só nessas despesas já vai o dinheiro todo e pra comer, como fica? Tá muito complicado, não sabemos se vamos comer amanhã. Paga as despesas do mês e a gente fica sem ter o que comer dentro de casa com dois filhos pequenos que as vezes não entendem a situação”, conta.

Alexandro, mais conhecido como Índio, é funcionário de Aldemir Henrique que trabalha no Quiosque 4 em Ponta Negra. Aldemir é presidente da Associação de Quiosqueiros da praia da Zona Sul. A categoria aguarda com ansiedade a autorização para reabrir as portas e voltar a trabalhar.

Praia de Ponta Negra sem funcionamento dos quiosques durante a pandemia — Foto: Douglas Lemos/Inter TV Cabugi
Praia de Ponta Negra sem funcionamento dos quiosques durante a pandemia — Foto: Douglas Lemos/Inter TV Cabugi

“A gente aguarda porque os bares, restaurantes e comércios do Alecrim já estão reabrindo e a gente não pode porque fica na praia. É uma situação muito complicada porque não aguentamos mais, tem gente passando necessidade porque as economias já acabaram. A gente não tava sabendo que ia poder reabrir agora dia 29, soube agora porque vocês me avisaram”, conta Aldemir Henrique.

Índio conta que Aldemir é um dos responsáveis por ajudá-lo durante a pandemia. “Nesse período, a gente está assim dependendo de ajuda de amigos e familiares. Aldemir me ajudou com um sacolão e com o gás que faltou aqui em casa. Já pedi ajuda a meu irmão, a minha mãe e outros parente”, diz.

E acrescenta: “Meu filho tem 12 anos e tá tendo aula online, esse dinheiro eu já pedi a minha mãe porque eu não podia pagar R$ 80 de internet. A menor que tem 4 anos não entende a situação. Faço uns bicos de jardinagem e minha esposa faz uns de manicure, mas tá muito difícil. Graças a Deus ainda tenho quem me ajuda e quem não tem?”

Os quiosques não puderam reabrir com o início do plano de retomada das atividades econômicas em Natal previsto em decreto municipal. Bares e restaurantes estão autorizados a funcionar com restrições desde o dia 7 de julho, mas os quiosque não se encaixam nessa fase porque o Decreto Estadual 29.742 determinou o fechamento das orlas.

Índio mora em uma casa alugada com a esposa e os dois filhos — Foto: Cedida

Índio mora em uma casa alugada com a esposa e os dois filhos — Foto: Cedida

Diálogo com as autoridades

Mesmo fazendo um apelo para voltar a trabalhar, Alexandro entende a importância do distanciamento para evitar a propagação da Covid-19. Índio pertence ao grupo de risco da doença e perdeu um primo de 46 anos para o coronavírus.

“A gente tá sendo tratado como invisível. Eu sei que precisamos ter todo o cuidado porque essa doença não é brincadeira, já senti na pele isso. Mas ao mesmo tempo queremos que algo seja feito porque a gente não sabia de nada. Eu fiquei sabendo agora que a volta tá prevista para agora dia 29 por causa da reportagem de vocês”, diz.

O apelo é endossado por Aldemir Henrique, patrão de Alexandro e presidente da associação que representa os quiosqueiros. “A gente não foi procurado por ninguém e estamos assim sem saber como vai ser daqui pra frente. Ninguém da prefeitura e nem do governo veio aqui conversar com os quiosqueiros, estamos esquecidos”, ressalta Aldemir.

O que dizem os citados

A Prefeitura de Natal, por meio da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (Semsur), informou que não tem autonomia sobre as orlas do município. A assessoria da pasta disse que estas áreas são de domínio do governo federal e estão sob a administração do governo estadual, portanto o Executivo local não teria como regulamentar o funcionamento dos quiosques. A Semsur juntamente com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb) são as responsáveis pelas fiscalizações nas praias.

O Governo do Estado do Rio Grande do Norte comentou que está trabalhando no controle da pandemia para manter os prazos das fases estabelecidas no plano de retomada e prepara o cenário adequado para a reabertura dos quiosques e barracas no dia 29 de julho.

As orlas públicas do RN estão fechadas conforme estabeleceu um decreto estadual no início de junho para conter a disseminação do coronavírus evitando aglomerações. Desde então, o acesso às praias está limitado a práticas de esportes individuais como passeios e caminhadas. Mesas e cadeiras na faixa de areia seguem proibidos.

Praia de Ponta Negra em Natal — Foto: Matheus Mesgrael

Praia de Ponta Negra em Natal — Foto: Matheus Mesgrael