Aécio Neves rebate Doria e acusa o governador de São Paulo de oportunismo

Aécio Neves e João Dória
Foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados e José Cruz/Agência Brasil

As desavenças entre o deputado Aécio Neves (PSDB) e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB) voltaram ao centro das discussões internas do partido nesta semana. Na última segunda-feira (8), Doria promoveu um jantar para correligionários da sigla no Palácio dos Bandeirantes e a pauta seria a expulsão do colega mineiro, pleito que já foi colocado anteriormente e rejeitado pela Executiva tucana em 2019. 

Agora, a disputa entre eles teria como pano de fundo a eleição para a presidência da Câmara dos Deputados. Isso porque, segundo integrantes aliados do governador paulista, Doria atribui ao deputado mineiro o movimento para que o PSDB se colocasse como neutro na disputa pela presidência da Casa. Entre os convidados para o jantar estava o líder do PSDB na Câmara, Rodrigo de Castro (MG), mas ele não atendeu à reportagem.

No entanto, por meio de nota, Aécio Neves garantiu que o jantar teve outra razão: o desejo de João Doria de assumir a presidência do PSDB, que atualmente é comandado por Bruno Araújo. “O destempero do governador se deve, na verdade, à sua fracassada tentativa de se apropriar do partido, como ficou explicitado no jantar promovido por ele ontem, que tinha como objetivo afastar o atual presidente Bruno Araújo, para que ele próprio assumisse a presidência do PSDB”.

Disse também que Doria chegou a se autoproclamar presidente da legenda. “O desrespeito à democracia interna é tamanha que hoje mesmo o governador chegou ao extremo de se autoproclamar  “presidente nacional do PSDB”, cargo para o qual nunca foi escolhido por seus pares”. 

Assine nossa newsletter

Receba as principais notícias de Minas e do Brasil do jeito que o mineiro gosta com a qualidade e profissionalismo de O TEMPO. Eu concordo em receber comunicações.ASSINE AGORA

Ainda segundo o deputado tucano, “política não se faz com arroubos pela imprensa e nem se resume a ações sucessivas de marketing”. E completou, subindo o tom contra o governador paulista e acusando-o de oportunismo e de criar falsos conflitos: “Se o Sr. João Doria, por estratégia eleitoral, quer vestir um novo figurino oposicionista para tentar apagar a lembrança de que se apropriou do nome de Bolsonaro para vencer as eleições em São Paulo, através do inesquecível Bolsodoria, que o faça, sem utilizar indevidamente e de forma oportunista outros membros do partido. Criar um conflito artificial dentro do PSDB para alimentar na imprensa projetos pessoais cada vez menos críveis, é desrespeitar a história de uma legenda construída há décadas por muitos brasileiros e que, mesmo nos momentos dos mais duros embates, jamais viu desaparecer a boa educação e, principalmente, o respeito entre seus membros. Lamento profundamente que esteja faltando ao governador de SP a temperança e a humildade para compreender aquilo que sabemos desde a fundação do partido: que o PSDB não tem dono e que a vontade de um jamais se sobreporá à vontade da maioria”.

A avaliação de Aécio é corroborada pelo presidente do PSDB em Minas, deputado Paulo Abi-Ackel. Ele também disse que Aécio foi usado como “isca” para o jantar promovido por Doria, mas que o objetivo seria tratar da presidência do partido. E garantiu que não houve qualquer movimento de apoio a Arthur Lira na disputa pela presidência da Câmara e que Aécio, inclusive, trabalhou para manter o PSDB no bloco de apoio à Baleia Rossi.

“O governador Doria deveria buscar conquistar a simpatia do partido, ao contrário, ele busca tomar o partido para si. Criou um problema artificial tendo como objetivo tirar da presidência Bruno Araújo, assumir o seu lugar, impedir prévias e não dar margem para qualquer possibilidade do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, crescer na preferência da militância. Usou Aécio Neves como instrumento”. 

Na eleição da Câmara, o PSDB declarou apoio a Baleia Rossi (MDB-SP), candidato do ex-presidente Rodrigo Maia (DEM-RJ) e de oposição ao atual presidente da Casa, deputado Arthur Lira (PP-AL). A decisão da legenda também marcava posição contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que defendia abertamente a votação em Lira. Na véspera da eleição, após o próprio Democratas declarar neutralidade na disputa, o PSDB foi pressionado a tomar a mesma decisão, mas se manteve no bloco de apoio ao candidato do MDB.

Bancada mineira 

O novo embate entre Aécio Neves e João Doria foi tratado na reunião de bancada coordenada pelo líder do PSDB na Câmara, Rodrigo de Castro (MG) nesta terça-feira (9). “Isso daí foi perguntando a ele, se de fato aconteceu, porque todos foram surpreendidos com essa questão, e a colocação que o Rodrigo fez era que esse era um assunto que já tinha sido ultrapassado por decisão da Executiva e que não teria nenhuma ressonância na bancada dos deputados”, disse o deputado mineiro Eduardo Barbosa (PSDB).

Na avaliação de Barbosa, a bancada do PSDB ficou dividida entre Arthur Lira e Baleia Rossi na eleição da Câmara. No entanto, ele desconhece qualquer atuação de Aécio no sentido de apoio à Lira. “Eu acho que, como a bancada ficou dividida entre o atual presidente e o Baleia Rossi, e o Doria defendia o apoio a Baleia Rossi, ele entendeu que isso poderia ter uma articulação de um grupo que levou a essa divisão. Mas, na realidade, essa divisão se deu e depois houve um consenso na bancada de liberar as opiniões diversas. Então, acabou que a bancada não fechou questão, justamente porque tinha a divisão. E eu acredito que, de alguma forma, o Doria pode ter entendido assim, que era algum tipo de articulação de Aécio nesse sentido, mas eu não vi essa articulação. Pode até ter tido, mas eu nunca fui abordado por Aécio ou por ninguém nesse sentido”, disse Barbosa. 

Já Domingos Sávio (PSDB-MG) acredita que a origem da disputa entre os colegas de partido é a mesma que, há pouco mais de um ano, levou à tentativa de expulsão de Aécio Neves do partido. Ele defende, no entanto, que o debate sobre esse e outros problemas da legenda sejam feitos internamente e que, sejam definidos critérios objetivos para o afastamento de dirigentes partidários.

“Eu acho que os problemas do partido precisam ser enfrentados internamente e com critérios justos para todos. Creio que não é razoável o partido achar que discutir, muito menos de forma pública, os problemas de um parlamentar melhora a vida do partido. Acho que nós temos muitos problemas a resolver, não vou minimizar esse como se não houvesse nenhum problema envolvendo a trajetória do hoje deputado Aécio Neves, mas não acho que os problemas do PSDB se resumem a isso. Acho que nós temos que ter a humildade e autocrítica de fazer uma série de revisões no partido para buscar o que nós temos de bom, e o partido tem muita coisa boa para oferecer para o País”, afirmou.

O Tempo

Leave a Comment